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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Amantes, de James Gray


Eu tenho quase a certeza de que, em alguns momentos, meu coração parou de bater enquanto assistia Amantes. Vê-lo amando alguém pode ser impactante como um meteoro, melancólico como uma tarde fria e nublada. Interessante como lentamente vamos simpatizando e identificando-se com Leonard, embarcamos juntos em sua montanha-russa de emoções e sentimentos. Um dos grandes dramas amorosos do ano (e porque não da década?) entra para a lista obrigatória de filmes que tratam sobre amor de uma forma sincera, de uma forma nua, despida de clichês e felicidade. Sim, pois o amor é duro e cruel.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O jogo mais cinematográfico de todos os tempos

*Postado originalmente n'Os Armênios

O guarda da patrulha pensa ter visto um vulto, mas não dá muita atenção. Passados alguns segundos ele escuta um barulho estranho e decide ir checar atrás de umas caixas. Chegando lá observa que está tudo bem, nada de anormal. Ao se virar para voltar ao seu posto, só sente a chave de pescoço e desmaia instantaneamente. O “barulho”, um veterano e lendário espião, simplesmente segue com sua missão que tem como objetivo salvar o mundo de uma guerra nuclear.

Essa cena poderia ser parte de qualquer filme de espionagem, de guerra ou até de outro gênero, mas não é. Estamos falando da franquia mais cinematográfica que existe no mundo dos games: Metal Gear Solid. Seu criador, Hideo Kojima, se inspirou em vários filmes para criar sua obra, além de mesclar ação, espionagem, temas políticos, científicos e roteiros bem elaborados desde o princípio. O game se tornaria um clássico e uma referência obrigatória para todos que vieram após, além de inaugurar o gênero stealth.

A saga iniciou em 1987 com o lançamento de Metal Gear para o MSX, console que ficou praticamente restrito ao oriente. Diferente dos demais jogos do mercado, seu objetivo não era sair matando seus inimigos e sim passar despercebido por eles, como um fantasma. Foi o começo do “tatical espionage action”, ou ação de espionagem tática. Veio para o ocidente numa versão menos caprichada para o NES. Em 1990 sai Metal Gear 2: Solid Snake, exclusivo para MSX. Para a época ele trouxe boas inovações na jogabilidade e nos gráficos, além de elementos que figurariam em todas as continuações. Mas somente em 1998, na era de ouro do Playstation, que Kojima alcançaria o auge. Tal como George Lucas em Star Wars, ele aguardou o momento certo para retomar sua criação favorita. Metal Gear Solid foi considerado por vários sites e revistas o melhor jogo do ano, principalmente pelo enredo hollywoodiano. Já consolidado no meio, ainda teria mais três seqüências: MGS2: Sons of Liberty e MGS3: Snake Eater para PS2 e MGS4: Guns of the Patriots para PS3, todos sucessos de vendas e críticas.

Do script completo sairiam alguns livros, mas para melhor compreensão seguiremos com uma pequena sinopse. No primeiro jogo, Solid Snake é um recruta mandado pelo lendário Big Boss em uma missão de resgate, numa nação armada independente chamada Outer Heaven. Nela descobre uma nova arma capaz de liderar sozinha uma guerra, Metal Gear, e que seu chefe é o líder de tal armada. Totalmente desacreditado por ser um iniciante, Snake consegue derrotar a temida máquina, Big Boss e explode o lugar inteiro. Na continuação Big Boss ressurge com Outer Heaven em Zanzibar, além de um novo modelo de Metal Gear, com o objetivo de transformar o mundo em um lugar apenas para soldados. Snake é enviado, se infiltra no local e triunfa sobre seu velho conhecido de guerra mais uma vez. Cansado das guerras e de ser apenas mais uma ferramenta na mão dos políticos, Solid Snake some de vez no frio do Alasca.

Aqui uma pausa. Mesmo com uma história forte, que flerta com a realidade e o futuro, não era possível desenvolver um roteiro, um script propriamente dito pelas limitações técnicas do MSX. Os 32 bits do Playstation permitiam a reprodução de cut-scenes, seqüências cinemáticas que já eram destaques em jogos como Final Fantasy e Resident Evil. Mas Kojima não queria simplesmente inserir cenas filmadas, fossem com atores ou em CG, isso destoaria do restante. Hoje em dia isto já passa batido, mas uma das coisas que mais chamavam a atenção em Metal Gear Solid era que as cut-scenes tinham os mesmos gráficos do jogo, inédito na época. E não eram apenas ‘filminhos’ para deixar o jogo mais bonito ou brincar com o poder técnico do console, eram seqüências longas, com planos de cenas fundamentados e trabalhados, essenciais para a compreensão de toda a história.

Mesmo tendo feito faculdade de economia para somente depois ingressar na indústria do entretenimento eletrônico, Kojima sempre foi um cinéfilo. Um de seus hobbys favoritos é assistir filmes e entre seus diretores favoritos estão Luc Besson, Krzyzstof Kieslowski, Jean Cocteau, David Lynch, James Cameron, John Carpenter, Dario Argento, George A. Romero, John Woo, Sam Raimi e conterrâneos como o ‘imperador’ Akira Kurosawa e Joji Iida. O cinema foi de uma contribuição enorme para o nascimento do jogo.

E não há como falar de cinema e espionagem sem falar de Bond, James Bond. Essa foi a principal fonte para a criação como um todo, especificamente “007 contra Goldfinger”. O clássico “Os Canhões de Navarone” contribuíram no conceito de infiltração tática e de homens realizarem feitos impossíveis, enquanto um dos pontos mais exaltados da saga, a forte mensagem contra as armas nucleares e a guerra em geral, foi encorajada por “O Planeta dos Macacos”, lançado em 1968. Ainda na temática, parte substancial da trama são assuntos como robótica, biotecnologia, biomedicina e genética (especificamente o projeto genoma), são vistos em “Robocop” e “Exterminador do Futuro”.

Alguns personagens são referências diretas, como o protagonista Solid Snake. O nome já é uma alusão à Snake Plissken, vivido por Kurt Russel em “Fuga de Nova York”. Como o personagem do longa de Carpenter, Snake é um cara cool, irônico e rebelde, mas que sempre completa a missão custe o que custar. Outro personagem que leva na graça a referência é o cientista nerd Otacon - Hal Emmerich – homenagem ao Hal-9001 de “2001: Uma Odisséia no Espaço”. A atiradora de elite Sniper Wolf (que serviria como uma luva em Daryl Hannah) nasceu da garota vietnamita de “Nascido Para Matar”.

Os grandes filmes de ação dos anos 80, além dos citados, também serviram de base. A abertura de MGS3 é praticamente o começo de “Rambo II”: o protagonista a bordo de um avião, preparado para pular de pára-quedas na floresta. As camuflagens físicas e pinturas de rosto utilizadas no game também foram sugadas do filme, além de se situar na selva. Outra fonte para o ambiente é “Predador”, além da camuflagem stealth, item obtido ao terminar o game e presente em todos os capítulos a partir de MGS. A bandana, item que confere munição infinita, ao contrário do que a maioria pensa não é por causa do Rambo e sim uma homenagem a “O Franco-Atirador”, de Michael Cimino. E falando de atiradores, MGS segue o caminho dos realísticos tiroteios entre Robert De Niro e Al Pacino em “Fogo Contra Fogo”.

Já a ambientalização de MGS4 se inspirou em “Falcão Negro em Perigo”, principalmente nos efeitos de iluminação e no clima de guerrilha urbana. Ainda no mesmo, os movimentos de câmeras foram inspirados em “Filhos da Esperança”, as marcações, posições e a distância que ela mantém do personagem são muito semelhantes. Um dos principais slogans do episódio, “war become routine”, também saiu do filme de Alfonso Cuarón. O cuidado com a trilha sonora também é mais que evidente. Harry Gregson-Williams, compositor de filmes como “Chamas da Vingança” e “X-Men Origens: Wolverine” assina o departamento musical dos jogos desde sua estréia no PS2.

É praticamente inevitável que, num futuro não muito distante, Solid Snake ganhe sua versão nas telonas. O filão de games vem se demonstrando um nicho mais que lucrativo para a indústria do cinema, mas que ainda carece de trabalhos fidedignos aos respectivos originais. Entre a destruição de “Resident Evil” e outros filmes que somente estragaram os enredos e tudo mais, apenas “Terror em Silent Hill” teve um retorno positivo da crítica, e não foi tanto assim.

As adaptações de Halo, Prince of Persia, God of War, Bioshock e Lost Planet já estão com suas estréias programadas e é bem provável que encham as salas e decepcionem os fãs. Muitos depositam em Metal Gear Solid a esperança de uma reviravolta nesse contexto. De fato, se algum game merece uma versão cinematográfica digna de encher os olhos e mudar o curso da história entre games e cinema, este é ‘o jogo’. Fica a torcida para que não estraguem essa obra-prima. Até lá seguimos assistindo. Ou melhor, jogando.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Up - Altas Aventuras

Up, dirigido por Pete Docter. 2009.




Pacto com o demônio. Essa seria a resposta mais lógica para a qualidade e a constância dos filmes da Pixar, além de um natural virtuosismo para coisa. Quando você acha que chegaram ao extremo, que não é possível fazer uma animação tão divertida quanto a anterior, eles vão lá e fazem. Parece até que é só de sacanagem. Up – Altas Aventuras não foge dessa regra: emociona, faz rir, chorar e toda a gama de emoções possíveis de se ter dentro do cinema.

Muito da trama gira em torno da amizade. Percebe-se isso antes mesmo de tudo começar, no tradicional curta que precede o longa. Um amigo jamais abandona outro, esta é a lição de companheirismo que uma cegonha dá a uma atrapalhada nuvem em “Parcialmente Nublado”. Não é necessário muito tempo e nem mesmo de diálogos para a mensagem ser passada e perfeitamente entendida, deixando indiferentes apenas os que provavelmente não são seres humanos.

Aliás, esses são os principais pontos da Pixar em seus filmes: a simplicidade e uma enorme habilidade de mexer com as emoções do telespectador. Foi assim no incessante resgate em Procurando Nemo, na sincera vontade de Remy em cozinhar em Ratatouille, no espírito esportivo em Carros, na romântica aventura em Wall-E, enfim, em praticamente todas as obras do estúdio.

Carl Fredricksen e Ellie se conheceram ainda na infância, onde sonhavam em ser exploradores e aventureiros. Ele faz uma promessa de um dia levá-la para morar no Paraíso das Cachoeiras, na América do Sul, custe o que custar. O tempo passa, os dois se casam, estabelecem um lar, passam pela tristeza de um aborto, pelas demais fases da vida e pelo envelhecimento, até o falecimento dela. A cena não dura mais que cinco minutos, porém é repleta de momentos simples e comoventes, como no piquenique onde decidem ter filhos e ajeitando a caixa do correio da casa, sempre com cores saltando aos olhos e a trilha sonora dando o toque de sensibilidade necessário.


Carl agora é um velhinho que vive rotineiramente em sua casa, a única na quadra, pois ao redor já está tomado de construções e prédios. Devido a um mal entendido, ele acaba sendo forçado a ir para um asilo. Essa é a gota d’água para cumprir de vez a promessa feita a Ellie: ele amarra sua casa em milhares de balões e literalmente levanta vôo rumo ao Paraíso das Cachoeiras. Mas ele não vai sozinho. Um simpático e gordinho escoteiro chamado Russel acaba sem querer embarcando junto na viagem.

E como são bem elaborados os personagens, além de cativantes. Carl é o típico velhinho chato, ranzinza, teimoso, mas que no fundo tem um coração do tamanho do mundo. Russel tem toda a energia e curiosidade característica de uma criança de oito anos, mas sente muita a ausência da figura paterna em casa e vê em Carl um pouco dela, além da amizade que eles constroem ao decorrer do filme. Falando em amigos, o que dizer do melhor amigo do homem, Dug. Inicialmente ele faz parte dos cães do vilão Charles Muntz, mas logo se junta aos protagonistas. Muito engraçado e extremamente expressivo, o cão falante é de longe o grande destaque.

Mais uma vez a Pixar merece uma salva de palmas. Up é um filme completo, eles ainda não fizeram um filme ruim, que peque absurdamente em algum aspecto, e pela evolução de suas obras é mais que provável que tal fato não irá acontecer. Também é provável que as novas regras do Oscar 2010 venham corrigir as injustiças ocorridas com Ratatouille e Wall-E, que mereciam pelo menos uma indicação a categoria de melhor filme. Nada mais justo para um estúdio que anda voando alto por aí.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Idiotas e Anjos

Idiots and Angels. Dirigido por Bill Plympton. EUA, 2008.




Um dos grandes sonhos do homem é voar, desde os tempos remotos da mitologia com Ícaro até os dias de hoje com os mais modernos aviões. Mas e se tal dádiva fosse dada ao mais egoísta e um dos piores seres humanos que existissem na face da terra? É exatamente nesse indivíduo o foco de “Idiotas e Anjos”, bela animação norte-americana com uma história relativamente simples, mas muito bem arquitetada.

E o protagonista dela é Angel, um cara verdadeiramente babaca que não se importa com mais nada além de si nesse mundo. Resumindo, ele é a perfeito conceito de um idiota. Acontece que, milagrosamente, certo dia ele acorda com um par de asas nas costas. Mas tal qual um anjo, seu presente faz com que ele pratique boas ações, forçando-o a ir contra sua própria natureza. Durante esse conflito com ele mesmo e as tentativas de arrancar as asas, o inusitado presente desperta a cobiça de várias pessoas, que vêem nisso a chance de fazer muito dinheiro e fama.

Aqui o terror é apenas um detalhe que aparece algumas vezes. Tem um pouco de comédia, de romance, de humor negro, porém o que toma conta é a fantasia. Ele não tem diálogos, porém tudo é facilmente compreendido com o desenvolvimento da trama e através do interessante e abstrato traço, este criando até um clima sombrio no filme. A trilha sonora parece escolhida a dedo e acompanha e dita ritmo em tudo que rola na história. Outro ponto que vale destaque são os sonhos dos personagens, seqüências psicodélicas que variam desde uma viagem dentro de um copo até vôos com borboletas numa tarde ensolarada, totalmente surreais e bastante divertidas.

Para completar, no final de tudo tem uma esperançosa mensagem, de que todo mundo pode mudar. Talvez a idéia do diretor não fosse transformar o filme em algo moralista, mas é para o que vai lentamente se encaminhando. Isto ocorre bastante em animações assim é possível fazer uma correlação com a vida real e não se perde a conexão com a realidade, mesmo que o mais divertido de uma animação seja dar asas para que a criatividade e a imaginação alcem grandes vôos.

*Postado originalmente no CINEFILIA.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

The Science of Sleep

La Science des Rêves, Michel Gondry, 105 min., 2006




Mais uma vez certeiro. Mais uma vez Michel Gondry acerta a mão em “Sonhando Acordado” ao tratar novamente sobre o amor. Legítimo cinema de autor, aqui todas as suas características maluquices estão presentes. O resultado é uma obra de enorme sensibilidade, originalidade e criatividade.

Stephane é um cara que possui um certo problema: ele oscila entre a realidade e os sonhos. Literalmente sonha acordado. Em certos momentos ele não consegue mais diferenciar quando está acordado ou dormindo. Stephane é um artista, mas tem um trabalho que não gosta muito, pois a liberdade criativa nele é zero. E em seus sonhos povoa Stéphanie, sua meiga vizinha por quem ele começa cada vez mais nutrir um amor. Só que esse amor não é correspondido, uma tragédia clássica tema de infinitas obras em todos os campos artísticos.

Ok, não dá para negar que dá uma sensação de fossa parecida com “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Porém aqui o clima é muito mais lúdico, é tudo mais onírico. Cavalos saem voando, existem mares de papel celofane, céus de algodão, mãos ficam gigantes, pode-se sair nadando pelas cidades, o programa que ensina a ‘cozinhar’ os sonhos, tem até uma inusitada perseguição de carros de papelão. O mais interessante é que pouca computação gráfica é usada, a maioria dos efeitos especiais é feita em stop-motion, o que dá um visual diferenciado no filme, um ‘quê’ nostálgico, antigo, charmoso até. Já que se trata de um filme sobre sonhos a idéia é que se viva dentro de um, que passe a sensação de estar dentro de um, pelo menos deve ter sido essa a intenção do diretor e em várias vezes é cumprida com méritos.


Em determinada altura do filme tudo se mistura, sonhos e realidade, à medida que Stephane se apaixona cada vez mais. Talvez o espectador mais desatento careça um pouco de atenção para não se perder nessa mudança de narrativa. Aqui cabe um parênteses para a atuação de Gael García Bernal, excelente ator que toca o barco praticamente sozinho até o fim do filme. As demais atuações também estão muito boas, mas quem se sobressai é o ator mexicano.

É bem possível que a maior marca dos trabalhos do diretor Michel Gondry, ultrapassando até a singular estética visual de seus filmes, seja a sensibilidade. O interessante é que ele conseguiu fazer um filme parecido com “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” revisitando o tema proposto, mas ao mesmo tempo único, com suas nuances e singularidades. Um filme bonito, açucarado, que faz com quem assiste coloque um sorriso ou uma lágrima no rosto. Qual dos dois irá depender de como andam os sonhos...

*Postado originalmente no CINEFILIA

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Invasora

Mas esse filme tem tanto, mas TANTO sangue... simplesmente sensacional. Não bate o "Martyr's", mas mesmo assim "A Invasora" é algo finíssimo e obrigatório para os fãs de terror.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Martyrs

Martyrs, Pascal Laugier, 99 min., 2008




O cinema francês vem fazendo muito bonito no terror atualmente. Depois do conceituado “A Invasora”, é a vez de Martyrs dar o ar da graça. O filme acaba virando uma experiência que vai além do que apenas sentar no sofá e assistir. E no caso deste é uma experiência agonizante e angustiante. Um filme que exige bastante psicologicamente do espectador e também requer estômago.

Uma das coisas que torna ‘Martyrs’ muito especial é ver a evolução e o desenvolvimento da trama, ficar esperando o que irá acontecer logo em seguida. Por isso a sinopse será estritamente breve. Lucie, com 10 anos, é achada à beira da estrada apresentando fortes sinais de espancamento, mas surpreendentemente sem sinais de violência sexual. Não se sabe como ela conseguiu escapar do cárcere. É levada então a um orfanato onde conhece Anna, que toma conta dela e se tornam amigas inseparáveis. Quinze anos depois, Anna ainda acompanha Lucie, agora numa busca por repostas e vingança. Só que seus atos trarão conseqüências irreversíveis, sem contar o assombro de um velho trauma...


Porém é impossível não falar da chacina no começo do filme. Sangrenta, fria e violenta. Daquelas de dar um nó no estômago, de deixar o telespectador totalmente avoado e pasmo. É nesse momento que o filme fisga quem assiste, até porque é ele o estopim de todo o resto da história. No café da manhã de um final de semana, uma família inteira é executada a tiros de escopeta, sem nenhuma chance de reação ou defesa. O invasor entra e mata todos sem falar nada, apenas agindo. A cena é filmada sem câmeras lentas, sem trilha sonora, somente os gritos, a correria e os tiros. Bastante verossímil e assustadora.

A parte técnica como um todo é impecável. A parte da chacina é disparada a melhor de todas, mas várias seqüências tiram o fôlego, como a cena em que Lucie se tranca no banheiro. A atuação das duas protagonistas é digna de destaque. No que diz respeito ao terror, vários sustos e tonéis de sangue garantem essa parte, mesmo que o forte seja a história. Idem para o suspense, a trama prende, não perde ritmo e sentindo em nenhum momento, fazendo com que olhos fiquem bem abertos até à hora dos créditos. Direção muito boa de Pascal (que também escreveu o roteiro), não é a toa que foi de mala e cuia para Hollywood dirigir um remake de ‘Hellraiser’ e muito provavelmente obtenha êxito em sua nova empreitada.

Mas é entre o segundo e derradeiro ato que é o clímax se estabelece, onde o filme realmente surpreende. A trama se inverte toda. As questões, que vem sendo respondidas em pouco a pouco, propiciam uma reviravolta radical na história. Se no começo do filme cabia somente especular sobre certos acontecimentos, agora eles são devidamente e totalmente esclarecidos. Essa reviravolta faz com que o espectador entre no filme, participe de todo o sofrimento e caminhe junto com a personagem no espinhoso castigo que lhe infligem. As torturas físicas e psicológicas incomodam de verdade, é desesperançoso e duro de assistir. Fazer com que o espectador também passe pelo martírio é uma jogada inteligente do diretor. A execução da seqüência também ajuda pra isso, vários fade-out dando aquela ansiedade, os closes, o ambiente escuro e sufocante. Enfim, é como se tivessem torturando, agredindo e passando por cima de você.


O final instigante fecha ‘Martyrs’ de forma interessantíssima. A sensação é estranha, o martírio terminou e você ainda sente o baque, fica paralisado enquanto os letreiros finais descem. Falar sobre ele sem revelar certos pontos é meio complicado, mas não falar sobre ele é mais difícil ainda. Um terror de primeira, muito acima dos exemplares lançados recentemente no mercado. Pra quem é fã do gênero não assisti-lo deveria ser passível de punição. Mesmo sendo um terror fala muito sobre sacrifício, fé e ,principalmente, redenção. É uma experiência daquelas que nos fazem agradecer o cinema por existir.

*Postado originalmente no Cinefilia.

terça-feira, 17 de março de 2009

Comando Para Matar

Commando, EUA, 1985, 90 min., dirigddo por Mark L. Lester




Tudo bem, ele está muito longe de ser um Robert De Niro ou um Al Pacino, mas eu não entendo porque implicam tanto com Arnold Schwarzenegger. Dentro do gênero ação ele é uma lenda. O governador da Califórnia tem em seu currículo pelo menos dois clássicos indiscutíveis, Predador e O Exterminador do Futuro II, mais uma penca de filmes legais e divertidos. Tem lá suas bombas também, mas Comando para Matar não é um delas. Apesar de algumas falhas e clichês, “Comando” é honesto e fiel ao seu propósito.

Arnoldão é John Matrix, um veterano do exército, agora aposentado e que vive com sua pequena filha, Jenny. Acontece que, nos seus dias de serviço, ele deixou alguns desafetos para trás. Homens de sua equipe são assassinados e os militares acreditam que Matrix será o próximo, e de fato seria. Seqüestram sua filha para que ele coopere no assassinato de um presidente. Acontece que ele não lida com sequestradores, marginais e bandidos. O único tratamento que eles receberão de John é chumbo.

Tiros, frases de impacto e músculos resumem bem a década de 80 no cinema. Década do Rambo, do John McClane, do Snake Plissken, do Martin Riggs e Roger Murtaugh, das incontáveis perseguições de carros, explosões e tiroteios. Muitos torcem o nariz por questão de gosto mesmo, já outros afirmam ser apenas violência gratuita, descerebrada, que não soma nada na formação cinematográfica de alguém. Como se o cinema fosse apenas interpretações intelectuais, críticas rebuscadas, análises profundas da sociedade e da mentalidade humana... por favor, tenham dó. Tudo tem seu momento. As questões citadas tem os seus assim como a ação propriamente dita.

Claro que tem gente com a manha de fazer grandes filmes e propor discussões, como Coppola em Apocalypse Now, Oliver Stone em Platoon, John Carpenter e outros, mas não precisa ser somente isso. Pode ser algo mais superficial mesmo, só para diversão. Por exemplo, certas vezes eu não quero saber se os vilões são índios, latinos, negros, judeus, alemães, alienígenas, se fala sobre o nazismo ou ditaduras políticas na América do Sul, só quero ver ação na tela.

Pura e simplesmente ação, os corpos caindo no chão, os depósitos explodindo, as eletrizantes perseguições, o pau comendo solto. Difícil alguém que manje mais disso do que Schwarzenegger. “Comando” é um exemplo disso, ele é um cara bruto e rude que não deixará nada barato. Ele arranca, destrói, amassa com seus braços qualquer coisa que seja obstáculo. A linha do roteiro é simples para que a pancadaria tome conta. Algumas falhas técnicas são berrantes, mas nada que atrapalhe o andamento geral. Os mais perfeccionistas irão notar caras voando sem tomar tiros e sem sangrar, mas isso são coisas da época também.

Comando para Matar é isso, Arnoldão fazendo o que melhor sabe: dando tiro para todos os lados e passando por cima de tudo e todos. O propósito do filme é ação e a isto é totalmente fiel, sem frescura e vai direto ao ponto. Logo após ele emplacaria Predador e faria história nos filmes de macho. Um filme que não quer levantar mil indagações, simples mas que é honesto consigo mesmo e faz lembrar como era boa a década de 80.

*Postado originalmente no Cinefilia
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Enigma de Outro Mundo


Review sobre um dos melhores filmes de John Carpenter, postado no Cinefilia. Clique aqui para redirecionar e ler a crítica.

sábado, 18 de outubro de 2008

Trovão Tropical


Fui ao cinema esperando um filme bem bagaceira, cheio de piadas idiotas e paródias mal feitas. Porém esse filme me surpreendeu. Não é só bom, como é excelente.

Tudo está ali, os cliches de guerra, a referência aos clássicos, a trilha sonora batida. Mas quando digo isto não me refiro a uma cena com "Cheiro de Napalm" e Cavalgada das Valquírias, eles foram além, fizeram piada da megalomania de Coppola, do sentimentalismo do Oliver Stone e dos efeitos de Spielberg. Ainda estão ali Comando para Matar, Rambo, e vários outros filmes de guerra, com alusões ora inteligentes, ora escrachadas.

Um filme pra quem tem bagagem. A metalinguagem de um filme sobre um filme é muito bem trabalhada, e explorada em seus mais divesos aspectos, desde a vida dos atores até a ira de um produtor megalomaníaco e seu diretor meia-boca.

Ben Stiller me surpreendeu na direção, muitas vezes os cortes são secos demais e muito abruptos, e não há nada de inovador no que ele fez, mas todos os planos e enquadramentos clássicos estão ali. No geral ele foi bem. Downey Jr. está muito bem também, e o Jack Black é o ponto fraco do filme, as piadas mais idiotas são com ele, poderiam tê-lo usado melhor.

Enfim, é divertido e engraçado, e de maneira surpreendente, não é só isso, tem um que de reflexão e exige um mínimo de bagagem do espectador.

Por Luciano Evangelista
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Encontros e Desencontros

Lost in Translation, Sofia Coppola, 102 min., 2003


Bob é um veterano ator em decadência, que aceita um contrato de propaganda de uísque no Japão para tirar uns trocos a mais. Charlotte, uma belíssima jovem que recém casou com um fotógrafo, também está em Tóquio, mas acompanhando o marido. É nesse país, nessa cidade que ambos se encontram e começam a viver uma peculiar história de amor, resultado do segundo filme de Sofia Coppola, Encontros e Desencontros. Esclareço que esse texto é uma mistura de desabafo com crítica cinematográfica, fica aqui claro o aviso.

É até um pouco engraçado pensar que pessoas para se encontrarem, necessitem de um pouco de solidão. Bob, um Bill Murray inspiradíssimo e que perdeu o Oscar injustamente, vai ao Japão em busca de um dinheiro a mais mesmo, pois já não emplaca mais sucessos como antigamente. Mesmo do outro lado do mundo fala diariamente com a mulher e os filhos, fala com aquela tristeza na voz, com aquele olhar de que as coisas não são mais como eram. Também é engraçado ver como ele reage num lugar muito diferente, ele fica perdido na cosmopolita Tóquio como um sutiã em lua de mel. Suas ações e reações rendem ótimos momentos e ótimas risadas, como na sessão de fotos da propaganda.

Do outro lado tem a desumanamente linda Scarlett Johansson como Charlotte, que “aproveita” a sua lua de mel. O maridão ta pouco se lixando pra ela e se importa mais com seu trabalho, deixando a moça sozinha quase todo o tempo. Tal como Bob, ela sente que algo mudou, que não tomou a decisão certa, isso fica claro quando ela tenta desabafar com uma amiga pelo telefone, e com a ajuda da indiferença dessa amiga, caí aos prantos. Tudo é nesse clima meio melancólico, até que ela e Bob se conhecem.

Amor... quem sabe um dia a humanidade entenda o que realmente significa esse sentimento e toda a gama de conseqüências que ele causa. Eu prefiro acreditar que ele simplesmente acontece. Pode acontecer de um olhar, de um toque, de um beijo, de uma foda casual, mas o amor também pode acontecer do respeito, do convívio, do carinho e da admiração pela pessoa amada. Independente da forma como, ele simplesmente acontece e não há nada que possamos fazer. Pode ser por aquela pessoa que você viu nos seus sonhos, pela aquela que você viu na parada de ônibus ou na mesa de um café pela cidade, por aquela que passa por você despercebida todo dia, por aquela com quem você convive diariamente contigo. Amor também é simplesmente querer estar perto de alguém, seja do jeito que for. Ultimamente eu estou concordando com o amigo Steve Tyler: amor é uma doce miséria.

Eu gosto de traçar um paralelo de Encontros e Desencontros com o filme Closer. O filme de Nichols é basicamente sobre sexo, mas sem uma cena de tal, assim como o filme da Sofia é basicamente sobre amor, mas isso está implícito ou demonstrado de forma mais, como posso dizer... suave. Para embasar minha correlação, tem a cena do karaokê (uma belissimamente mal cantada More than this), a cena onde o Bob pega no pezinho da Charlotte e nada mais, além do fenomenal desfecho. Importante falar da mão da Sofia pra qualidade do filme, muito legal sua visão da iluminada Tóquio, com longos e abertos takes com a cidade e suas paisagens, ora calma e natural como no casamento no parque, ora agitada e barulhenta como no fliperama (alias isso contribui em muito para a vontade de viajar que me dá toda vez que assisto ao filme).

Se a pessoa que imagino ler isso aqui um dia, o que eu quero realmente dizer é que não deixarei que nada fique entre a gente, não vou desistir. Tudo bem que as coisas não ocorreram como deviam nesse momento, eu entendo até e estou de certa forma conformado de como as coisas estão agora, mas sei que um dia tudo ficará bem. E nesse dia eu estarei aqui, independente do rumo que nossas vidas tomarem, eu estarei aqui por inteiro e sem mudar nada do que sinto por ti, estarei te esperando com um amor incondicional e você sabe disso. Aquelas três palavras que giram como um tornado na minha mente hão de serem respondidas um dia. Assim espero.
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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Southland Tales - O Fim do Mundo

Southland Tales, Richard Kelly, 145 min., 2006



Richard Kelly foi muito ousado no seu segundo filme, Southland Tales. Confesso que tive que assistir duas vezes para decidir se gostava ou não. Mais uma vez o tema é o fim do mundo, mas aqui o apocalipse é num tom mais irônico, bem mais debochado. Enquanto o mundo segue na terceira guerra mundial e uma nova forma de energia é criada, um ator famoso se perde e sofre amnésia e um policial é seqüestrado por rebeldes neo-marxistas. Mesmo nesse cenário apocalíptico, futurista e surreal, ainda sobra tempo para fazer piadas com sexo (tesão adolescente não é crime!). Com uma trama muito confusa, que mixa internet, controle governamental sobre tudo, explosões nucleares, programa de atrizes pornô e viagens no tempo, o filme conclui de forma satisfatória numa bela seqüência. Mais incrível é o elenco, cheio de nomes desacreditados como The Rock, Justin Timberlake e Seann Willian Scott, e carimbados como Sarah Michelle Gellar, mas que interpretam muito bem seus personagens (destaque pra Seann). Ainda inferior que Donnie Darko, Kelly não deixa opção pra meio termo aqui, ou você adora ou você odeia Southland Tales. Eu fico com a primeira opção.

E aqui, sem nenhum spoiler, a parte mais legal do filme:

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Medo da Verdade, Rambo 4 e Três Extremos

Medo da Verdade, 116 min., 2007


Eu nunca dei o mínimo de chance pro Ben Affleck como ator, mas na direção ele me surpreendeu. E muito. O desaparecimento de uma menina comove a polícia e a cidade, mas para ajudar na investigação é contratado um jovem detetive (Casey Affleck, que só pra que conste dá de 10 a 0 no irmão). Coincidência ou não com o caso Madeleine, o filme é baseado na obra de Dennis Lehane e tem nomes como Ed Harris e Morgan Freeman inspirados no elenco, além de uma trama muito boa. Tá, tudo bem, confesso que peguei um pouco de simpatia pelo Ben.


Três Extremos, 125 min., 2004



Três segmentos de terror, Box, Dumplings e Cut, dirigidos respectivamente por nada mais nada menos que Takashi Miike, Fruit Chan e Chan-wook Park. No primeiro, para retratar um antigo trauma que assombra uma escritora, Miike capricha no visual e diminui o ritmo. Na seqüência, uma mulher procura rejuvenescer de uma maneira não muito ortodoxa, assim digamos. De antemão, recomendo não comer durante o segundo segmento. No final, Park mostra a revolta de um figurante contra um diretor, alternando momentos de humor com (adivinhem) violência. O resultado não poderia ser menos que ótimo ao juntar dois dos grandes malucos do cinema asiático.


Rambo 4, 91 min., 2008



Continuando com a onda de trazer os grandes heróis à tona novamente, Rambo 4 se mostra um exemplar legítimo dos filmes de ação, tal como toda a saga de John Rambo. Sua missão agora é salvar uma equipe de humanitários que pretendia levar ajuda para uma região em guerra, mas foram capturados pelo exército do país. Sanguinolento como nunca e tal como John McClane em Duro de Matar 4.0, a idade parece não ter afetado o herói do Vietnã. Rambo 2 ainda é melhor em todos os aspectos, mas o 4º filme não faz feio.
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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Audition

Ôdishon, Takashi Miike, 115 min., 2000.



Ayoama, executivo de uma empresa e viúvo desde quando o filho era pequeno, decide se casar novamente. Para terminar com sua solidão, com ajuda de um amigo, ele monta uma falsa audição de um filme para achar uma mulher que preencha todas as suas exigências. Nessa audição que ele conhece Asami, fica simplesmente encantado pela moça e começa a sair com ela. Porém, o ar misterioso de Asami indica que ela esconde vários segredos...

Considerada a obra que alavancou Miike para o reconhecimento internacional, diretor conhecido pela temática violenta e extremista, Audition começa com um ritmo lento até, como se fosse um "filme normal"assim digamos. Seu foco, até certa altura, é na paixão que Ayoama cria por Asumi. Após passarem uma noite juntos, ela simplesmente desaparece. Cego de paixão, ele vai atrás dela e percebe que realmente nunca soube de sua vida, onde ela mora, onde trabalha e etc., e aí começa a parte Takashi Miike do filme.

Tudo que ficou guardado durante o filme desenboca no ato final, cujo ápice é uma seqüência de tortura absurdamente agoniante. Mescla terror e suspense com surrealismo nos delírios do personagem, o clima sereno e melancólico que tomava conta do filme agora dá todo espaço para a escuridão e terror. Não é de se espantar que, no festival de Rotterdam, no ano 2000, várias pessoas deixavam a sala nesse momento e na Suiça uma desmaiou durante a sessão. É algo óbvio, mas Miike não é para todos, no mínimo o que se precisa é ter estômago para aguentar os desvaneios dele. Apesar disso, Audition choca mais pela crueldade, não pela violência. Ichi: O Assassino é muito mais violento e sanguinolento, mas a tal tortura faz qualquer um sentir calafrios.

Esse é o cinema desse japonês maravilhosamente sem noção e demente, às vezes suberversivo, às vezes engraçado, usualmente violento e mesmo que não seja para todos os gostos (e estômagos), sempre bom de se assistir. Mas como dizia Tarantino, violência é uma das coisa mais engraçadas que se pode assistir. Violento também é o choque que ele insiste em infligir no espectador, enfiando guela abaixo de quem assiste qualquer reação que este venha a ter.
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domingo, 9 de março de 2008

Juno

Juno, 96 min., Jason Reitman, 2007.


Seguindo a mesma trilha deixada por Pequena Miss Sunshine, o 'independente-indie' Juno é uma agradabilíssima surpresa. Tudo começa quando Juno (muito bem interpretada por Ellen Page), uma adolescente com 16 anos, engravida do seu melhor amigo, Paulie, e já decide dar o bebê para adoção. Após conhecer um casal com condições e interesse de criar seu bebê, ela vai lidando com os vários aspectos que mudam na sua vida.

É muito bom ver que Hollywood vem cada vez mais admirando, premiando e aderindo a essa tendência de produções mais simples onde o ponto forte são as histórias. Mesmo custando "apenas" 7,5 milhões de US$, valor bem abaixo das principais produções do mainstream, e tal como Pequena Miss Sunshine, o filme abocanhou um Oscar, de melhor roteiro, e teve outras 3 indicações, incluindo melhor filme e diretor. Foi mais que justo o Oscar de Melhor Roteiro para Diablo Cody, que fez um roteiro com diálogos engraçados, memoráveis e cheio de momentos inusitados, como as dezenas de caixas de tic-tac e a pequena mudança na frente da casa de Paulie.

Tais seqüências combinadas com uma trilha absurdamente boa (Sonic Youth, Belle and Sebastian, Velvet Underground) e uma história muito legal, arrancam instantaneamente um sorriso de quem assiste. Aliás, esse poderia ser o resumo do filme: um grande, alegre e sincero sorriso.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O Hospedeiro

Gwoemul, Bong Joon-Ho, 2006, 119 min.



Uma substância química altamente tóxica é largada em um rio na Coréia por um laboratório americano, dando origem a um monstro. Além de causar um pânico generalizado na cidade e fazer várias vítimas, o monstro pega a menina de uma família que mora próxima ao rio. A menina é dada como morta, mas uma noite após o incidente ela consegue ligar para a família de um lugar desconhecido, fazendo com que seus parentes saiam em busca dela. Essa é a premissa inicial de O Hospedeiro, um dos sucessos asiáticos do ano passado, mas que aterrissou por aqui somente em 2007.


Por mais simples ou clichê que pareça, não se deixe enganar pela simples linha de ‘filme de monstro’ da trama. Dando um novo fôlego ao gênero, onde se encontram Godzilla e similares, O Hospedeiro tem um nível bem alto de tensão, mesmo com os vários momentos de suspense e até de humor. Os sucessivos acontecimentos mantêm o espectador colado no sofá, que ele fique torcendo para que os protagonistas saiam vivos de cada situação. Os bons efeitos especiais, a atuação do elenco sem grandes deslizes que comprometam o resultado final e a direção tranqüila de Joon-Ho fazem com que o filme seja um agradabilíssimo entretenimento.

Tal como o cinema japonês e asiático em geral, o cinema coreano já nos presenteou com verdadeiras obras cinematográficas, como Old Boy e A Bittersweet Life, e agora novamente nos traz mais um belo filme, com uma boa carga de terror, suspense e humor. O Hospedeiro é uma ótima diversão, prova disso é que você irá lembrar dele quando passar próximo de um rio.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Fogo Contra Fogo

Heat, Michael Mann, 1995, 170 min.



“- Sabe, estamos aqui sentados, como dois sujeitos normais. Você faz o que faz, faço o que tenho de fazer. Agora que estivemos cara a cara, se eu precisar prende-lo, não vou gostar. Mas lhe digo uma coisa, se for escolher entre você e um coitado cuja esposa se tornará uma viúva, irmão, você vai pro saco.

- Há o outro lado nesse jogo. E se você me prender e eu tiver de matar você? Porque não importa o que seja, você não atrapalhará meu caminho. Estivemos cara a cara, sim. Mas não vou hesitar, nem por um segundo.”


A cidade de Los Angeles serve de palco para a guerra entre Vincent Hanna, tenente do departamento de Polícia, e Neil McCauley, um experiente e gabaritado ladrão. Até aí tudo bem simples, é a trama de mais um filme de bandido e mocinho. Seria. Seria mais um, se Al Pacino e Robert De Niro não encabeçassem um grande elenco e não tivesse a mão de Michael Mann na direção de Fogo Contra Fogo, espetacular filme de ação/policial da década de 90.

“Não assuma compromisso com nada que não possa
largar em 30 segundos se a coisa sujar na esquina.”


Começando pelo elenco, recheado de grandes nomes como Val Kilmer, Ashley Judd, Tom Sizemore, Diane Venora, Dennis Haysbert (pode ser visto em The Unit), William Fichtner (do seriado Prision Break), Natalie Portman logo após emplacar O Profissional, e Jon Voight. Todos esses nomes liderados por Pacino e De Niro. Claro que o foco é na guerra e nos dramas pessoais dos protagonistas, mas cada personagem tem sua história bem desenvolvida e esclarecida, como a problemática enteada de Pacino, o vício e a crise conjugal do personagem do Val Kilmer, a dificuldade de um ex-presidiário voltar à sociedade como no personagem do Haysbert.

“Preciso preservar toda minha angústia! Eu a preservo porque preciso dela.
Ela me deixa afiado, no ponto, onde eu preciso estar.”


A direção de Michael Mann é muito segura, proporcionando belíssimas cenas, no geral com planos bem abertos e distantes. Além disso, considero a cena do tiroteio a melhor que existe em filmes policiais, pelos seguintes motivos: ela é praticamente em tempo real (se calcularmos o tempo, vai dar muito próximo do real), sem slowdowns ou cenas em câmera lenta (somente uma no final da seqüência, mas irrelevante) e sem trilha sonora no fundo, é só o barulho dos tiros e da correria. Simplesmente genial. Frases e diálogos de impacto são abundantes também, como de exemplo o diálogo entre Al Pacino e Robert De Niro que inicia o post.

Um clássico dos anos 90 e uma das maiores obras de ação/policial já criadas. Um elenco monstruoso liderado por dois dos maiores atores de todos os tempos, se não os dois melhores, com um diretor extremamente competente. Tudo funciona de forma harmoniosa, equilibrada, mantendo a tensão e ação. Fogo Contra Fogo é 5 estrelas, sem a menor sombra de dúvida.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Ichi, o Assassino


Baseado no mangá de Hideo Yamamoto, tudo começa com o sumiço de Anjo, um dos chefões da Yakuza. Junto com ele somem três milhões de yenes e surge a suspeita de ele ter roubado o dinheiro para fugir com uma prostituta. O mais fiel de seus capangas, o cruel e masoquista Kakihara, recusa-se a aceitar isso e acredita que ele tenha sido seqüestrado ou assassinado por rivais...


segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Sunshine - Alerta Solar

Título Original: Sunshine
Direção: Danny Boyle
Duração: 108 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2007





O sol está morrendo. A única forma de salvá-lo é jogar uma bomba dentro dele, que teoricamente faria reacender a estrela. Para isso é enviada a nave Icarus 2, já que a primeira não conseguiu êxito e sumiu misteriosamente. A tripulação viaja milhões de quilômetros com o propósito de salvar a humanidade, mas completar a missão não será nada fácil. Danny Boyle dirige Sunshine – Alerta Solar, ficção científica escrita por Alex Garland, que também foi roteirista de Extermínio, estrelada por nomes como Cillian Murphy, Chris Evans e Michelle Yeoh.

Os efeitos especiais estão muito bons, assim como a belíssima fotografia. O filme possui seqüências espetaculares, como as da sala de observação, onde praticamente pode se sentir a solidão que os personagens passam no espaço, e da caminhada extra-veicular, onde dois tripulantes precisam reparar alguns painéis externos da nave. A irreverência e o estilo de Boyle estão presentes também: o ritmo frenético, os diferentes ângulos e, em certos momentos, imagens desfocadas e distorcidas que chegam a causar angústia.


Mas o grande feito do diretor foi saber distribuir o papel de cada personagem. Todos têm importância, destaque e momentos pessoais na trama, é muito bem desenvolvida a dinâmica e o choque entre as relações, entre as emoções e as razões de cada um. Aqui o destaque fica com Chris Evans, atuação que claramente destoa dos demais, além de seu personagem ter momentos diferentes na história.

Porém, infelizmente, a coisa desanda um pouco na parte final do filme. Além de Boyle exagerar no seu ‘estilo’, a trama sofre uma reviravolta muito grande, tirando um pouco do realismo que vinha tendo até então. Mesmo sendo uma obra de ficção pura, as ações e os rumos tomados pelos personagens soam muito reais, mérito do consultor científico da equipe. Mas no término caí no velho e clichê confronto entre religião e ciência.

Fazia um bom tempo que não era lançada uma obra de ficção científica boa (a próxima promessa é Avatar, de James Cameron). Com referências dos grandes clássicos do gênero como Solaris e 2001: Uma Odisséia no Espaço, e similaridades com filmes mais recentes, como Alien e O Enigma do Horizonte, Sunshine dá conta do recado apesar de alguns erros e do escorregão no final. Um bom entretenimento, visualmente espetacular e com uma boa quantidade de suspense e realismo.