terça-feira, 28 de março de 2006

Capote

Duração: 98 min.
Ano de Lançamento (EUA): 2005
Direção: Bennett Miller


Vencedor do Oscar de melhor ator para Philip Seymour Hoffman, Capote conta como foi feito o livro "A sangue frio", pelo então jornalista da revista "New Yorker" Truman Capote, sobre o assassinato de uma família inteira numa pequena cidade do interior. Porém, o foco principal do filme não é o assassinato e sim a relação do escritor com um dos homicídas.

Tudo começa em novembro de 1959, com Capote e sua amiga Harper Lee (Catherine Keener), escritora de O sol é para todos, indo para a cidade de Holcomb, no Kansas, para fazer a matéria sobre o brutal assassinato. Chegando lá eles ficam amigos do xerife Alvin Dewey (Chris Cooper), comandante da investigação. Após acharem os dois culpados, Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Dick Hickock (Mark Pellegrino) são condenados à forca, Capote começa a entrevistá-los e a engenhar seu famoso livro.

Truman Capote começa a ter uma identificação maior com Perry, sendo que ambos sofreram muito ao decorrer de suas vidas, criando uma amizade, mesmo tendo em vista que ele estava se aproveitando de ambos, esperando o dia da execução. Ele até mesmo os ajuda, contratando advogados para prorrogar a execução, com intuito de poder tirar informações para o livro. Mesmo com tudo isso, Capote acreditava que existia humanidade nos dois, mas sabia que eram dois assassinos. Um detalhe: depois de ter concluído "A sangue Frio", Capote jamais escreveu outro livro.

Destaque mesmo merece a atuação de Philip Seymour Hoffman, que a princípio é meio estranha, mas teria sido muito coerente com o Capote original. O ego do escritor também era conhecido, pois é dele a famosa frase "this is not writing is typewriting" (isso não é escrever, é datilografar) ao ler parte de On the Road, bíblia da geração beat escrita por Jack Kerouac. Era só o que faltava, o cara falar mal dos beats, mas enfim...

O filme foi bem dirigido por Bennett Miller, sendo o segundo de sua carreira. Uma fotografia discreta, com planos de filmagens muito parecidos. Tecnicamente não tem erros ou falhas grotescas. Seria melhor ler o livro antes de assistir o filme, pois lá estão os detalhes que dariam uma melhor compreensão ao fascínio de Capote por Perry e Dick. É uma bela obra, que faz jus a fama do livro, considerado um dos maiores expoentes da literatura americana.

sábado, 25 de março de 2006

Estréias para 2006

O código Da Vinci - A adaptação do best seller de Dan Brown, conta à história do simbologista Robert Langdon e da criptógrafa Sophie Neveu, envolvidos num assassinato que aconteceu no Museu do Louvre. O diretor responsável, Ron Howard, tem no elenco atores como Tom Hanks, Sophie Neveu, Jean Reno e Alfred Molina. Se o livro (cuja idéia principal é de que Jesus foi casado com Maria Madalena, deixando o legado da Igreja para ela, assim contradizendo tudo o que há na bíblia) já deu muita discussão, o filme vai causar mais alvoroço ainda. Mas tirando tudo isso, se o roteiro for bem adaptado, será um dos destaques desse ano.

The Fountain - Novo trabalho de Darren Aronofsky, ainda não foi muito esclarecido. O que se sabe é que trata de amor, morte, espiritualidade e a fragilidade da nossa existência nesse mundo. O elenco conta com Hugh Jackman e Rachel Weisz, além de velhos conhecidos do diretor como Sean Gullette e Ellen Burstyn. Pelo o que foi mostrado em Pi e Réquiem para um sonho, os fãs do diretor já estão roendo os dedos para assisti-lo.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Melhores Filmes de 2005

A lista a seguir conta apenas filmes que entraram no circuito nacional em 2005, independente do ano de lançamento em seus países.


Menina de Ouro – Premiado como melhor filme no Oscar 2005, é um projeto que já nasceu clássico. Conta à história de Maggie, uma garota sofrida e pobre que tem como sonho consagrar-se campeã mundial de boxe. Ela convence Frankie Dunn, um treinador meio antiquado (leia-sê machista) e seu amigo e sócio Eddie, á treina-la. Magistral direção de Clint Eastwood, a cada ponta de esperança e felicidade que ele proporciona vem seguida de uma desgraça maior, seco como um soco no estômago. Hilary Swank numa atuação inspiradíssima, assim como Morgan Freeman.

Batman Begins – Estritamente baseado nos HQ do Homem-morcego, diferente dos outros filmes, Christopher Nolan pegou um personagem esquecido e lhe colocou nos holofotes de novo. A história de Bruce Wayne é contada desde sua infância, passando por seu maior medo e do assassinato de seus pais até o seu treinamento na Liga das Sombras. O clima da série melhorou, ficando até mais adulto e verossímil dentro do possível, afinal é a história de um super-herói. O elenco é monstruoso também, contando com nomes como Liam Nesson, Morgan Freeman, Gary Oldman e Michael Caine. Agora é esperar que a seqüência siga com o mesmo nível.

Old Boy – Oh Dae-su é seqüestrado numa noite chuvosa. Sem saber o motivo pelo qual foi raptado, ele assiste pela televisão de seu cativeiro a morte de sua mulher e o desaparecimento de sua filha. Após quinze anos de cárcere ele ganha a liberdade, porém é avisado que tem apenas cinco dias para descobrir os reais motivos da sua prisão, além de saber o que houve com sua família. O cinema asiático, no geral, é o que mais cresce e evolui, tanto tecnologicamente quanto artisticamente. Esse filme, cuja direção é de Park Chan-Wook, é apenas uma amostra desse processo, que mescla um roteiro surpreendente com ação e suspense. E o final então, de deixar qualquer um pelo menos um pouco pensativo.

No Direction Home - Bob Dylan – Documentário que conta à vida do músico, desde seus primeiros acordes no violão, passando por sua transição do folk para o rock, até sua consagração mundial. Dirigido por Martin Scorsese, é além de tudo uma viagem até a cena cultural de Nova York dos anos 60. Entre as entrevistas destaca-se a de Joan Baez, que foi companheira de Dylan na época, e de Allen Ginsberg, poeta beat. É basicamente o complemento visual do livro Crônicas Vol. 1. Essencial para os fãs do velhinho e interessantíssimo mesmo para quem não conhece ou não gosta dele, se isso for possível.

Edukators – Dois jovens amigos neo-revolucionários, Jan e Peter, fazem seus protestos de forma pacífica, que consistem em invadir casas de milionários e desarruma-las o máximo possível, mas sem roubar ou quebrar algo. Um dia Jule, que é namorada de Peter, descobre o que eles fazem e insiste em participar. Numa noite como outra qualquer eles invadem uma casa, mas durante o ato o morador volta, pegando-os no flagra. Para escapar da prisão eles resolvem seqüestrar o morador até decidirem o que fazer. Belíssimo filme que trata bastante de amizade e ideologias. O filme passa uma idéia bonita, possui discussões ideológicas contundentes. O desfecho é muito bom, com uma pequena surpresa no final dos créditos.

Sin City - A cidade do Pecado­ – Baseado na graphic novel de Frank Miller, o filme conseguiu transmitir o universo corrupto, sujo, monocromático e traiçoeiro de Sin City. Sua produção foi quase toda em computação gráfica, o que possibilitou um espantoso nível de fidelidade com o HQ, incluindo o sangue branco em certas cenas. São três histórias paralelas: do policial honesto que luta contra os mais poderosos para proteger uma menina; de um homem que busca vingança pela morte de seu amor e da guerra entre a polícia e as prostitutas assassinas de ‘Old Town’. Tem como ponto forte sua fotografia, inovadora. O elenco é muito bom contendo, entre outros, Bruce Willis e Mickey Rourke e Benicio Del Toro.

A Queda - As últimas horas de Hitler – Filme alemão que retrata o que teriam sido os últimos momentos do ditador antes de seu suicídio pela visão de sua secretária Traudl Junge. Interessante mostrar o final da segunda guerra pelo lado dos alemães. Outra coisa é que o filme mostra bem a fidelidade que o alto escalão tinha com o nazismo, como na cena onde a esposa de Goebbels matando os filhos. A atuação de Bruno Ganz como Hitler também merece destaque.

Sideways - Entre umas e outras – Miles (degustador profissional de vinhos) e Jack (ator) são grandes amigos, mas antes do casamento de Jack ambos resolvem viajar pelos Estados Unidos provando todos os tipos de vinhos e emoções, uma espécie diferente de uma despedida de solteiro. Primeiro é necessário ressaltar a aula de interpretação de Paul Giamatti, que já havia mostrado seu talento em O anti-herói americano e em outras obras, mas em Sideways ele foi o destaque. Ótimo roteiro, baseado na obra de Rex Pickett, a propósito levou o prêmio de roteiro adaptado no último Oscar.Vale a pena uma garrafa desse filme, ou melhor, uma caixa dele.

Closer - Perto demais – No filme de Mike Nichols amor é apenas uma palavra de quatro letras. É um quadrilátero amoroso entre os personagens de Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts e Clive Owen, onde todos os sentimentos são expostos sem papas na língua. Importante retratar que é um filme que só fala de sexo, quase em que todos os diálogos (um exemplo: a cena do sexo virtual), porém sem mostrar uma cena de nudez sequer. Pode parecer meio forçado as vezes, mas é a cruel realidade, sem nenhuma hipocrisia. A melancólica “The blower’s daughter”, de Damien Rice, fecha (e abre) o clima do filme.

Casshern - Reencarnado do Inferno – O melhor filme de 2005. Num futuro não tão distante, a Ásia entra em guerra contra a União Européia para decidir quem fica com o continente da Eurásia. Um cientista tenta achar a cura para sua esposa pesquisando as chamadas “neo-células” (analogia as células tronco). Enquanto isso seu filho escolhe partir para guerra, e acaba morrendo em combate. Porém acontece algo misterioso e milagroso ao mesmo tempo: um raio metálico (algo como o monólito em 2001) atinge o laboratório com as pesquisas das neo-células, dando vida aos experimentos. Ele então tenta trazer seu filho de volta a vida, mergulhando seu corpo no lugar atingido pelo raio. Em primeiro lugar, o filme é um deslumbre visual, cores belíssimas, fotografia fantástica, um fato notável do cinema digital. É um filme que fala sobre amizade, família, ética, além de possuir uma forte mensagem antibélica. Interessante que o telespectador fica livre para formular sua teoria sobre o raio, frustrando os mais passivos e preguiçosos. É baseado no anime japonês homônimo. Fantástico, emocionante, sensível, dinâmico. Graças a deus que ainda existem filmes como este.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Revisitando Clássicos - Parte III

O Poderoso Chefão – The Godfather

Para fechar com chave de ouro essa pequena trilogia sobre alguns clássicos, nada melhor do que a mais cultuada trilogia cinematográfica. A obra-prima de Francis Ford Coppola, baseado no livro de Mario Puzo, figura entre praticamente todas as listas de melhores filmes da história. Na lista dos 100 melhores da American Films Institute, ele aparece em terceiro lugar, ficando atrás somente de Casablanca e Cidadão Kane.

O filme conta á história da família Corleone, uma das principais famílias de “negócios” de Nova York. Don Vito Corleone (Marlon Brando) conhecido como “padrinho”, é um homem respeitado por todos, que faz favores como, por exemplo, mandar alguém espancar algum imbecil que tenha tentado estuprar sua filha, coisas desse gênero. Enfim, é um mafioso querido por todos, principalmente para seus filhos Michael (Al Pacino), Tom Hagen (Robert Duvall), Sonny (James Caan), Connie (Talia Shire) e Fredo (John Cazale). Os problemas começam para Vito quando Sollozzo (Al Lettieri), um gângster que tem apoio de uma família rival, encabeçada por Phillip Tattaglia (Victor Rendina) e seu filho Bruno (Tony Giorgio). Sollozzo, em uma reunião com Vito, Sonny e outros, conta para a família que ele pretende estabelecer um grande esquema de vendas de narcóticos em Nova York, mas exige permissão e proteção política de Vito para agir. Don Corleone odeia esta idéia, pois está satisfeito em operar com jogo, mulheres e proteção, mas isto será apenas a ponta do iceberg de uma mortal luta entre as "famílias".

Bem, vamos começar pelo elenco. O único nome conhecido era o de Marlon Brando, que não era garantia de sucesso. Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton eram iniciantes e desconhecidos do grande público. Robert de Niro tentou o papel de Michael Corleone, assim como James Caan, mas o personagem foi para Pacino. È algo meio mítico assistir este filme hoje, vendo todos esses atores consagrados no início da carreira. E ainda tem o Brando, eternamente lembrado como o Don Corleone, que com algodões na boca deu um modo especial à fala do patriarca.

O roteiro foi escrito por Coppola e Mario Puzo, autor do romance. Os dois evitaram a todo custo colocar a palavra “máfia” no script. Outra curiosidade do filme e da trilogia inteira é que quando apareciam laranjas na cena, era o prelúdio de que alguém iria morrer ou sofrer algum atentado. A fotografia foi encarregada a Gordon Willis, sempre mantendo o filme nas sombras, dando aquele clima misterioso nas principais seqüências. Nino Rota também foi impecável na música. É um dos poucos filmes onde fotografia complementa música e assim por diante, como numa engrenagem, por isso é um dos clássicos do cinema.

A saga dos Corleones é obrigatória para qualquer um que preze pelo cinema de alta qualidade. Na realidade, é obrigatório para qualquer pessoa, seguindo atual e fantástico mesmo depois de tê-lo assistido 20 vezes. É um manual de sobrevivência, além de essencial para a construção do caráter de um ser humano. Obra que lançou Al Pacino para o estrelato, rendeu um Oscar a mais para Marlon Brando e colocou o nome de Coppola na história como um dos maiores diretores do cinema. Se existe uma palavra para definir está obra, a palavra é “perfeição”, nada mais, nada menos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Duração: 110 minutos.
Ano de Lançamento(EUA): 2005
Direção: Garth Jennings


Arthur acorda com o barulho de máquinas ao redor da sua casa. A prefeitura quer destruí-la para construir uma rodovia no seu lugar. Seu melhor amigo, Ford, chega e diz que lhes restam pouco mais de 10 minutos para saírem do planeta, que será destruído pela raça alienígena Vogon para dar luga a uma via interespacial, além dele mesmo se revelar um alienígena. É mais ou menos assim que começa o Guia do mochileiro das Galáxias, filme baseado na obra de Douglas Adams.

O filme segue com os dois amigos num bar, degustando suas últimas cervejas, onde Arthur, interpretado por Martin Freeman, conta pra Ford (Mos Def) que conheceu uma garota numa festa na noite passada, Tricia (Zooey Deschanel), e estava apaixonado por ela. Pórem, ela fugiu com um cara chamado Zaphod, quebrando o coração de Arthur. Mas ambos precisavam sair dali, pois faltavam poucos minutos para a destruição da terra. Os dois conseguiram uma carona numa nave cargueira Vogon, e assistem a terra ser destruída, mas a preocupação agora é com os Vogons, que não gostam de dar carona, principalmente para mochileiros. Após serem descobertos e agüentarem a pior tortura dos alienígenas que é a leitura de suas poesias, são postos pra fora da nave, mas são resgatados por outra nave, a Coração de Ouro, tripulada pelo imbecil presidente da galáxia Zaphod Beeblebrox, muito bem caracterizado por Sam Rockwell, Tricia, a garota da festa que agora se chama Trillian, e Marv, um andróide maníaco-depressivo com a cabeça do tamanho de uma melancia.

A série O mochileiro das galáxias é muito famosa no meio literário, tendo como principal característica seu humor debochado e ácido. Confesso que comecei a ler depois que vi o filme, mas as gargalhadas seguem iguais. Gostaria de colocar uma pequena amostra do O Restaurante no fim do universo, segundo livro da série, pra demonstrar o tipo de humor e o clima do filme: “era um duplo par de Óculos Escuros Supercromáticos Sensipericulosidade Joo Janta 200, que tinham sido especialmente desenvolvidos para ajudar as pessoas a manterem uma atitude tranqüila ante ao perigo. Ao primeiro sinal de problemas, as lentes ficam totalmente pretas, evitando assim que a pessoa visse qualquer coisa que pudesse deixá-la tensa”. Sim, é muito parecido com o Monty Phyton, que dispensa apresentações.

E para os fãs de Monty Phyton, é praticamente impossível não gostar desse filme. São tantas as cenas hilárias, como a que o Pensador Profundo dá a resposta para o sentido da vida e da existência do universo (que é 42...), Marv com sua contagiante depressão, o sistema da Coração que foi programado para ser extremamente simpático, Ford espantando os vogons com uma toalha (corram, ele tem uma toalha!) e por aí vai. Tem algumas falhas no roteiro (a cena da baleia caindo no céu) e no início você demora pra se situar no filme, mas se tratando de uma comédia que beira o surrealismo, essas falhas não importam tanto. Os efeitos especiais foram bem feitos, sem erros gritantes. Também há uma pequena participação de John Malkovic.

Fazia tempo que não saia uma comédia legal como essa, afinal é a época de filmes medíocres e esdrúxulos como American Pie. E se tratando de comédias os ingleses são muito bons. Filmes como esse e Cálice Sagrado são artigos essenciais numa videoteca. Ah, e antes que me esqueça, o Guia do Mochileiro das Galáxias, que Arthur carrega durante o filme é o livro mais vendido no universo (é como a enciclopédia geral sobre o cosmos) e um dos motivos do sucesso é ter escrito na capa em letras garrafais a frase: NÃO ENTRE EM PÂNICO.