quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Especial Libertadores

"Com o Grêmio onde o Grêmio estiver".

Essa frase foi escrita pelo genial Lupcínio Rodriguez e faz parte do hino do clube, descreve o sentimento de todo o torcedor gremista. Sempre com o time, nas horas ruins e nas horas boas, independente de qual seja o desafio.

Agora, dia 25 de fevereiro, mais um capítulo começa a ser escrito. No estádio Olímpico Monumental, o time estréia na Taça Libertadores da América em busca do tricampeonato. A estrada é longa, o caminho é duro e espinhoso, mas nada é impossível para o Grêmio, a história deste clube já deu amostras mais do que suficiente de tais façanhas.

Mas agora, o que os blogs Dementia 13, Museu do Cinema, Tudo é Critica e Caminhante Noturno têm em comum? A paixão pelo time mais aguerrido e peleador das Américas. Quatro apaixonados por cinema que vão contar um pouco sobre o Grêmio e alguns de seus jogos mais marcantes na Libertadores. Vamos ao primeiro texto, que fala sobre o jogo contra o Estudiantes de La Plata, em 1983.


La Batalha de La Plata



Você conhece a célebre frase do ex-técnico do Liverpool Bill Shankly? Quem conhece sabe o quanto ela é forte. Pórem, quem entende e ama o futebol sabe o quanto ela é verdadeira.

Taça Libertadores da América, o torneio de futebol mais aguerrido, forte e duro do universo da bola, se estrutura com três times de países campeões mundiais, Argentina, Brasil e Uruguai, que se juntam (a melhor palavra seria degladiam) a Chile, Colômbia, Equador, Bolívia, Peru, Paraguai, Venezuela e México, para conhecer apenas um vencedor.

Em 1983, na cidade de La Plata, na Argentina, o Estudiantes recebia o Grêmio na semi-final da Libertadores daquele ano. Naquele tempo três times faziam a semi jogando todos contra todos, em jogos de ida e volta. O Imortal já tinha feito seu dever de casa ganhando do Estudiantes no Olímpico Monumental, faltava agora o jogo no campo do adversário e o último entre o esquadrão argentino e América de Cali, na Colômbia.

Em 1983 havia passado 1 ano da Guerra das Malvinas. Quando os ingleses entraram em disputa contra os argentinos. O sentimento bélico que já é forte nos times dos nossos vizinhos, se tornou explosivo. A libertadores virou uma batalha in campo contra a crueldade de uma guerra absurda e covarde por parte dos britânicos. O jogo era de alto risco pro Grêmio, mas todos sabiam da importância de se conquistar aquele título e, principalmente, de defender o azul, branco e preto do nosso manto imortal, contra qualquer time que fosse.

Já em terras argentinas, o clima que já era de guerra, e aqui é ao pé da letra, não um clichê jornalístico da imprensa de chuteiras, se tornou pior, como se ainda fosse possível. A mídia local soltou a bomba, figura de linguagem com o perdão de vocês, que um avião inglês teria usado terras brasileiras, com a devida autorização do governo federal, para abastecer e depois atacar nossos vizinhos. A guerra deixou um número de 649 homens mortos pelo lado dos hermanos. Bom, se o Brasil não entrou na guerra como conta nossos livros de história, nosso querido imortal, o time mais argentino do Brasil, mas o mais orgulhoso de defender a bandeira do país – afinal o Rio Grande do Sul é o único estado que escolheu ser brasileiro, foi empurrado para o meio da batalha, a batalha de la plata. E um time que se preza tem que ser forjado com sangue, suor, lágrimas e raça.

Dia 8 de julho de 1983, o acanhamento do estádio, junto a torcedores (não seria exército?) ensadecidos não deu outra, pressionou o elenco do Grêmio desde o momento em que puseram os pés naquele país. O jogo, literalmente, já tinha começado, não à toa o atacante Trobbiani levou um cartão amarelo por falta violenta em Caio antes mesmo do apito inicial, aos 10 minutos antes dos 90 do jogo, ainda nos vestiários.

O Grêmio ia a campo com Mazaropi, Paulo Roberto, Leandro, Hugo De Leon e Casemiro, China, Osvaldo e Tita, Renato, Caio e Tarciso. O jogo começou e nem preciso dizer que canela era bola e cotovelo era permitido. China faz uma falta no meio de campo no louco ensandecido Trobbiani, que se levanta dando murro no gremista em todos os lado, algumas vezes até em seus companheiros. Leva cartão vermelho e a confusão começa, empurrões no juiz, tudo quanto é tipo de objeto sendo jogado no campo, e torcedores enlouquecidos. O árbitro então expulsa Ponce pelo empurrão, que nem foi ele quem fez. Depois de um bom tempo de paralisação o jogo recomeça com a cobrança de falta para o Estudiantes, que levanta a bola na área, cabeçada para lateral e entra Gugnale para fazer o primeiro gol da partida aos 38 minutos. Se a torcida estava enlouquecida antes, imagine agora. Aos 44 minutos, 6 depois do gol argentino, uma jogada de De Leon e Caio coloca Osvaldo de cara pro gol do lado esquerdo, empate do Grêmio. Gol absolutamente legal, mas não naquelas circunstâncias, e o time de La Plata foi em cima do bandeirinha e nova confusão paralisou a partida. Depois de recomeçar, alguns pontapés, voadoras, canela, digo, bola voando pra arquibancada e o juiz apita o final do primeiro tempo.

O empate gerou nova confusão na entrada do tricolor nos vestiários e Caio sofre nova agressão dessa vez contundindo-o. César entrou no seu lugar. Já imaginando o que seria a segunda etapa, Valdir Espinosa tratou de conscientizar o sempre aguerrido Grêmio a controlar o jogo e principalmente a fúria adversária. A recíproca também é verdadeira. O time argentino entrou ensandecido.

Aos 7 minutos do segundo tempo, Renato Gaúcho, na direita, cruza rasteiro para César completar. Nova reclamação do time de La Plata, e nova paralisação. Aos 18 minutos, novamente Renato, recebe um lançamento de Tita, depois de Tarciso sofrer uma falta sem bola, e faz ótima jogada sozinho, entra na área num jogo de corpo deixa o zagueiro no chão e quando vai receber a pancada chuta pro gol de bico. Gol do Imortal, 3 a 1, Renato então, no calor de sua juventude, manda a torcida (exército) se calar, porém rapidamente é seguro por Leandro.

A fúria parte pro desespero e o bandeirinha leva uma pedrada. Sem fosso, separados apenas por uma tela, a vida dos auxiliares se torna perigosa. Os médicos gremistas atendem o bandeira, como se já não fosse pouco ficar apenas entre os jogadores. Uma pequena confusão no meio de campo com Renato é apaziguada rapidamente. Mais um jogador argentino é expulso. O jogo recomeça, bola na lateral direita do campo do Grêmio com Renato e dois dribles secos no marcador do Estudiantes e a sova vem de baixo e levanta o parrudo atacante imortal. Nova expulsão.

Aos 31 minutos, jogada na área tricolor sobra na esquerda, o ponta cruza rasteiro e Gurrieri de peixinho com a cabeça no chão diminui. Foi então que a pressão deu resultado e o quarto gol do Grêmio de Osvaldo é anulado pelo juiz. Faltando 4 minutos para o término, Gurrieri faz ótima jogada na entrada da área driblando 3 gremistas e chuta em cima da zaga, no rebote Russo chuta novamente a bola que desvia e engana Mazaropi, era o empate da batalha infernal.

Definitivamente o Imortal controlou a partida e a fúria dos hermanos. O empate saiu com gosto de vitória, literalmente, porque os desfalques acabaram sendo decisivos na partida seguinte. Um empate em zero contra o eliminado América de Cali frustrou o clube platense e sua geração de Ponce, Brown, Gottardi e Trobbiani, liderada por Carlos Bilardo (campeão do mundo pela seleção argentina). E é assim que forjamos nosso clube, com batalhas! QUE VENHA AS DA LIBERTADORES DE 2009!

Algumas pessoas acham que futebol é uma questão de vida ou morte. Eu discordo. Futebol é muito mais importante que isso”.


Cassiano Sairaf, além de gremistão, é cinéfilo e editor do Museu Do Cinema.

7 comentários:

Marcus Vinícius disse...

Já dizia o Peninha: "Futebol arte, como todo mundo sabe, é coisa de viado".

Pra gente é assim, tudo sofrido, tudo brigado, tudo escorrendo sangue. Se somos do nosso jeito, não é por acaso.

Museu do Cinema disse...

50 anos da Libertadores, felizmente, o marketing do torneio percebeu que devemos "identifica-lo" teremos um "selo" nas camisas dos times, assim como no torneio-irmão, Liga dos Campeões.

Museu do Cinema disse...

E tem que ser assim né Marcus, é muito melhor!

Marcus Vinícius disse...

Legal a idéia do selo, tava na hora já. Poderia tambem colocar as taças na manga, já pensou que tri?

Aliás, excelente texto. E dále GRÊMIO!

Otavio Almeida disse...

Já que meu time fez merda, torço pelo Grêmio na Libertadores! Chega de São Paulo!

Marcus, só que o Cassiano acha que sou pé frio...

Abs!

Pedro Henrique disse...

2009 é o ano do TRI! Maravilha de texto Cassiano!

Museu do Cinema disse...

Otávio, pé frio é seu time, vc vai na bagagem!

Pedro, valeu! Aguardo o teu!