terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Revisitando Clássicos - Parte III

O Poderoso Chefão – The Godfather

Para fechar com chave de ouro essa pequena trilogia sobre alguns clássicos, nada melhor do que a mais cultuada trilogia cinematográfica. A obra-prima de Francis Ford Coppola, baseado no livro de Mario Puzo, figura entre praticamente todas as listas de melhores filmes da história. Na lista dos 100 melhores da American Films Institute, ele aparece em terceiro lugar, ficando atrás somente de Casablanca e Cidadão Kane.

O filme conta á história da família Corleone, uma das principais famílias de “negócios” de Nova York. Don Vito Corleone (Marlon Brando) conhecido como “padrinho”, é um homem respeitado por todos, que faz favores como, por exemplo, mandar alguém espancar algum imbecil que tenha tentado estuprar sua filha, coisas desse gênero. Enfim, é um mafioso querido por todos, principalmente para seus filhos Michael (Al Pacino), Tom Hagen (Robert Duvall), Sonny (James Caan), Connie (Talia Shire) e Fredo (John Cazale). Os problemas começam para Vito quando Sollozzo (Al Lettieri), um gângster que tem apoio de uma família rival, encabeçada por Phillip Tattaglia (Victor Rendina) e seu filho Bruno (Tony Giorgio). Sollozzo, em uma reunião com Vito, Sonny e outros, conta para a família que ele pretende estabelecer um grande esquema de vendas de narcóticos em Nova York, mas exige permissão e proteção política de Vito para agir. Don Corleone odeia esta idéia, pois está satisfeito em operar com jogo, mulheres e proteção, mas isto será apenas a ponta do iceberg de uma mortal luta entre as "famílias".

Bem, vamos começar pelo elenco. O único nome conhecido era o de Marlon Brando, que não era garantia de sucesso. Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton eram iniciantes e desconhecidos do grande público. Robert de Niro tentou o papel de Michael Corleone, assim como James Caan, mas o personagem foi para Pacino. È algo meio mítico assistir este filme hoje, vendo todos esses atores consagrados no início da carreira. E ainda tem o Brando, eternamente lembrado como o Don Corleone, que com algodões na boca deu um modo especial à fala do patriarca.

O roteiro foi escrito por Coppola e Mario Puzo, autor do romance. Os dois evitaram a todo custo colocar a palavra “máfia” no script. Outra curiosidade do filme e da trilogia inteira é que quando apareciam laranjas na cena, era o prelúdio de que alguém iria morrer ou sofrer algum atentado. A fotografia foi encarregada a Gordon Willis, sempre mantendo o filme nas sombras, dando aquele clima misterioso nas principais seqüências. Nino Rota também foi impecável na música. É um dos poucos filmes onde fotografia complementa música e assim por diante, como numa engrenagem, por isso é um dos clássicos do cinema.

A saga dos Corleones é obrigatória para qualquer um que preze pelo cinema de alta qualidade. Na realidade, é obrigatório para qualquer pessoa, seguindo atual e fantástico mesmo depois de tê-lo assistido 20 vezes. É um manual de sobrevivência, além de essencial para a construção do caráter de um ser humano. Obra que lançou Al Pacino para o estrelato, rendeu um Oscar a mais para Marlon Brando e colocou o nome de Coppola na história como um dos maiores diretores do cinema. Se existe uma palavra para definir está obra, a palavra é “perfeição”, nada mais, nada menos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Duração: 110 minutos.
Ano de Lançamento(EUA): 2005
Direção: Garth Jennings


Arthur acorda com o barulho de máquinas ao redor da sua casa. A prefeitura quer destruí-la para construir uma rodovia no seu lugar. Seu melhor amigo, Ford, chega e diz que lhes restam pouco mais de 10 minutos para saírem do planeta, que será destruído pela raça alienígena Vogon para dar luga a uma via interespacial, além dele mesmo se revelar um alienígena. É mais ou menos assim que começa o Guia do mochileiro das Galáxias, filme baseado na obra de Douglas Adams.

O filme segue com os dois amigos num bar, degustando suas últimas cervejas, onde Arthur, interpretado por Martin Freeman, conta pra Ford (Mos Def) que conheceu uma garota numa festa na noite passada, Tricia (Zooey Deschanel), e estava apaixonado por ela. Pórem, ela fugiu com um cara chamado Zaphod, quebrando o coração de Arthur. Mas ambos precisavam sair dali, pois faltavam poucos minutos para a destruição da terra. Os dois conseguiram uma carona numa nave cargueira Vogon, e assistem a terra ser destruída, mas a preocupação agora é com os Vogons, que não gostam de dar carona, principalmente para mochileiros. Após serem descobertos e agüentarem a pior tortura dos alienígenas que é a leitura de suas poesias, são postos pra fora da nave, mas são resgatados por outra nave, a Coração de Ouro, tripulada pelo imbecil presidente da galáxia Zaphod Beeblebrox, muito bem caracterizado por Sam Rockwell, Tricia, a garota da festa que agora se chama Trillian, e Marv, um andróide maníaco-depressivo com a cabeça do tamanho de uma melancia.

A série O mochileiro das galáxias é muito famosa no meio literário, tendo como principal característica seu humor debochado e ácido. Confesso que comecei a ler depois que vi o filme, mas as gargalhadas seguem iguais. Gostaria de colocar uma pequena amostra do O Restaurante no fim do universo, segundo livro da série, pra demonstrar o tipo de humor e o clima do filme: “era um duplo par de Óculos Escuros Supercromáticos Sensipericulosidade Joo Janta 200, que tinham sido especialmente desenvolvidos para ajudar as pessoas a manterem uma atitude tranqüila ante ao perigo. Ao primeiro sinal de problemas, as lentes ficam totalmente pretas, evitando assim que a pessoa visse qualquer coisa que pudesse deixá-la tensa”. Sim, é muito parecido com o Monty Phyton, que dispensa apresentações.

E para os fãs de Monty Phyton, é praticamente impossível não gostar desse filme. São tantas as cenas hilárias, como a que o Pensador Profundo dá a resposta para o sentido da vida e da existência do universo (que é 42...), Marv com sua contagiante depressão, o sistema da Coração que foi programado para ser extremamente simpático, Ford espantando os vogons com uma toalha (corram, ele tem uma toalha!) e por aí vai. Tem algumas falhas no roteiro (a cena da baleia caindo no céu) e no início você demora pra se situar no filme, mas se tratando de uma comédia que beira o surrealismo, essas falhas não importam tanto. Os efeitos especiais foram bem feitos, sem erros gritantes. Também há uma pequena participação de John Malkovic.

Fazia tempo que não saia uma comédia legal como essa, afinal é a época de filmes medíocres e esdrúxulos como American Pie. E se tratando de comédias os ingleses são muito bons. Filmes como esse e Cálice Sagrado são artigos essenciais numa videoteca. Ah, e antes que me esqueça, o Guia do Mochileiro das Galáxias, que Arthur carrega durante o filme é o livro mais vendido no universo (é como a enciclopédia geral sobre o cosmos) e um dos motivos do sucesso é ter escrito na capa em letras garrafais a frase: NÃO ENTRE EM PÂNICO.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Sin City - A Cidade do Pecado

Direção: Robert Rodriguez e Frank Miller
Duração: 126 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2005


Baseado nas histórias em quadrinhos de Frank Miller, Sin City é uma bela surpresa, para mim pelo menos, e um deslumbre visual, apesar de sua monocromia. Em primeiro lugar, é impressionante o universo criado no filme, a maneira como o diretor Robert Rodriguez e Miller, co-diretor, conseguiram colocar os becos e predios cinzentos dos gibis para a tela. A fidelidade que houve com o original é espantosa, fantástico trabalho.

Os diretores contaram com um bom elenco, nomes como Bruce Willis, Mickey Rourke (a melhor interpretação disparada), a belíssima Jessica Alba e Clive Owen, que trabalhou recentemente em Closer. Ainda tem participações de Benício del Toro, Elijah Wood, Rosário Dawson, Michael Madsen e Britany Murphy, que também é uma graça de mulher.

São três histórias tiradas do HQ. Uma é a do policial Hartigan (Willis), um policial honesto, o que raríssimo em Sin City, que precisa proteger uma menina que salvou anos atrás, Nancy (Alba). A outra trata de Marv (Rourke), um marginal cujo único objetivo é vingar a morte da única mulher que amou. Finalmente, Dwight (Owen) vai até a Cidade Velha proteger as prostitutas de Jackie (Del Toro), ex de sua atual namorada Shellie (Murphy), um babaca que adora bater em mulheres.

Ainda tem a participação especial de Quentin Tarantino, que dirigiu algumas cenas. Pra quem não sabe, Robert Rodriguez fez a trilha sonora de Kill Bill 2, cobrando a simbólica quantia de 1$ dólar. O autor dos quadrinho, Frank Miller, também tem uma pontinha no filme, interpretando um padre.

Críticos baixaram a lenha no filme naquela lenga-lenga de sempre, que o filme é vazio, que é apenas violência gratuita e etc. Olha, minha sincera opinião é que esse papo de 'violência gratuita' é muito meigo pra mim. É um filme para divertir, e para os fãs do HQ é a realização de um sonho. Qualquer cinéfilo que se preze não esperava ver alguma indagação filosófica sobre a elevação do ser humano baseado nas obras de Nietszche como em 2001, ou sobre as relações humanas como em A Fraternidade é Vermelha, do mestre Kieslowski, mas sim diversão. Além do mais o que foi feito com a fotografia do filme é algo que merece destaque, só vi algo parecido em Casshern, maravilhoso filme coreano que pretendo comentar adiante.

Todos os pecados possíveis, e alguns a mais, são encontrados em Sin City, acompanhados de muitas balas e sangue, que ora é vermelho ora é branco. Vale a pena assistir pela fidelidade que tem com a novela gráfica. Falem o que quiserem, é um ótimo filme. E tenho dito.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Revistando Clássicos - Parte II

2001: Uma odisséia no espaço - 2001: A space odissey

O que se pode falar deste filme? Stanley Kubrick entra definitivamente para a história do cinema ao filmar a mais perfeita e complexa obra do cinema de todos os tempos. Genial e perfeccionista, Kubrick é considerado por muitos, além deste que vos fala, o melhor diretor de todos os tempos, pois é inegável que esteja entre os melhores. Segundo o próprio cineasta, as interpretações sobre o filme dependem de cada um, você é livre para ver da sua maneira. Tentarei, em breves palavras, com base em várias críticas, leituras e interpretações, explanar o filme e suas idéias, além de opiniões pessoais. É como colocar em palavras, tentar explicar uma obre de Van Gogh ou a 9ª Sinfonia de Beethoven. É difícil para um leigo, e até mesmo para um profissional do cinema, expressar sua opinião sobre este filme, mas não custar tentar.

A introdução começa com um grupo de macacos num passado distante, no capítulo intitulado ‘Aurora do homem’. Vivem normalmente, lutando pela sobrevivência. Até que numa noite eles descobrem o monólito, ficando maravilhados e curiosos quanto à descoberta. Fica claro que evoluíram (usando um osso, eles afastam outro grupo rival, matando a “ossadas” um membro) por causa deste. Numa cena ao estilo de Kubrick, um dos macacos atira o osso para cima e quando cai, a imagem corta para uma nave, o espaço e outras naves, num bale espacial ao som de Danúbio azul, de Bach. Aí se entende como milhões de anos tivessem passado, do osso até as naves espaciais, o caminho da evolução do homem.

Existem também várias ligações e conexões interessantes, como exemplo a ligação com outra Odisséia, de Homero. HAL seria o ciclope a ser derrotado por Ulisses, como Dave, que é jogado ao mar, um lugar desconhecido assim como o espaço, enfeitiçado pelo canto da sereia, que seria o sinal do monolito em direção à Júpiter. Há ainda a influência de Nietzsche, como se nota inclusive no título da principal música do filme chamada Also sprach Zarathustra, de Richard Strauss. Como é um filme que fala de evolução e alienígenas (penso eu pelo menos), é sustentável a comparação do bebe-estrela com o super-homem nietzschiano, pois ambas tratam de um patamar superior alcançado.

Ainda tem o monolito negro, onipresente em todos os momentos cruciais do filme. Alguns acreditam que é a manifestação física de Deus, outros acreditam que seja alienígena. O certo é que o homem evoluiu por influência direta do artefato. A sua ajuda foi crucial, explícita na sequência dos macacos e a ato final do filme, para a evolução do homem. Apenas uma pequena curiosidade sobre o filme: a sequência psicodélica onde Dave viaja pelo espaço, o capítulo Júpiter e além do infinito é sincronizada com a música Echoes, do Pink Floyd. Por acaso se lembram do Mágico de Oz? É... adoro essa banda.

2001 é daquelas obras que quebram as barreiras da imagem, linguagem, tempo e compreensão, que serão lembradas enquanto existir a humanidade, como as obras de Da Vinci, as teorias de Einstein, as composições de Mozart e os estudos de Watson e Crick. É algo indescritível, um marco do cinema. Só nos resta agradecer pela odisséia revolucionária proporcionada por este cineasta.


Mais informações e teorias em The Kubrick Site e Cinema em Cena.

domingo, 13 de novembro de 2005

O Relâmpago

O trabalho humano! eis a explosão que ilumina o meu abismo de tempos em tempos.

“Nada é vaidade; rumo à ciência, e avante!” clama o Eclesiastes moderno, ou seja Todo mundo. E contudo os cadáveres dos maus e dos ociosos caem sobre os corações dos outros... Ah! rápido, mais rápido; lá embaixo, além da noite, essas recompensas futuras, eternas... irão escapar-nos.

– Que posso fazer? Conheço o trabalho; e a ciência é muito lenta. Que a prece galopa e a luz atroa... eu o vejo bem. É muito simples; e faz muito calor, passarão bem sem mim. Tenho o meu dever, dele me orgulharei como fazem muitos, pondo-o de lado.

Minha vida está gasta. Vamos! finjamos, vadiemos, ó piedade! E viveremos a nos divertir, a sonhar amores monstruosos e universos fantásticos, queixando-nos e criticando as aparências do mundo, saltimbanco, mendigo, artista, bandido, – padre! No meu leito de hospital, o odor do incenso retornou poderosamente; guardião dos aromas sagrados, confessor, mártir...

Aí reconheço a minha infame educação de infância. Depois, o quê!... Alcançar os vinte anos, se os outros também o fazem...

Não! Não! agora eu me revolto contra a morte! O trabalho parece muito leve para o meu orgulho: minha traição ao mundo seria um suplício muito curto. No derradeiro momento, eu atacaria à direita, à esquerda...

Então, - oh! - pobre alma querida, a eternidade estaria perdida para nós!

Poema retirado da obra Uma Temporada no Inferno, de Arthur Rimbaud com tradução cedida por Marcelo Pacheco de Souza